Jansenismo

O jansenismo, surgido no seio da Igreja Católica no século XVII e condenado em várias bulas papais, já foi definido como "a doutrina de santo Agostinho vista com olhos calvinistas".

Conhece-se como jansenismo a doutrina dos seguidores de Cornelius Jansen, teólogo holandês que se tornou bispo católico de Ypres e faleceu em 1638. Baseado na tradicionalmente aceita doutrina de santo Agostinho, reafirmada por santo Tomás de Aquino, o jansenismo atribuía a salvação da alma ao juízo prévio e insondável do Criador, e não às "boas obras" ou à disposição da criatura. A teoria jansenista se acompanhava de uma ética severa e rigoroso ascetismo. Seus principais adversários eram os teólogos da Companhia de Jesus que, influenciados pelo humanismo renascentista, passaram a pregar a importância do livre-arbítrio e da colaboração da vontade humana na salvação. A revisão doutrinária humanística empreendida pelos jesuítas obedecia à idéia segundo a qual a persistência na tradição agostiniana favoreceria o calvinismo emergente.

As idéias jansenistas foram acolhidas com especial fervor na França por Jean Duvergier de Hauranne, abade de Saint-Cyran e diretor espiritual da abadia de Port-Royal. Preso em 1638 por se opor à política de Richelieu, foi sucedido por seu discípulo Antoine Arnauld, que popularizou a doutrina numa série de eloqüentes textos.

Cinco teses supostamente extraídas do Augustinus, obra de Jansen publicada postumamente em 1640, foram apresentadas pelos jesuítas ao papa Inocêncio X, em 1653, que as condenou por heréticas. Sucederam-se as condenações papais ao movimento, o que não impediu a criação de um influente grupo de intelectuais jansenistas em Port-Royal. Entre eles destacaram-se o filósofo Blaise Pascal, que em suas Provinciales (1656; Cartas provinciais) atacou duramente os jesuítas, e Pasquier Quesnel, cujas obras foram condenadas pelo papa e que morreu no exílio, pedindo um concílio para dirimir a questão.

Depois da destruição de Port-Royal em 1710, o partido jansenista adotou uma tendência de teor mais político, oposta ao absolutismo monárquico, e sofreu freqüentes investidas repressivas até a revolução francesa. Posteriormente, o movimento desapareceu como tal, mas pequenos grupos católicos reformadores sobrevivem nos Países Baixos até a atualidade. O desempenho histórico-social dos jansenistas tem causado controvérsia entre os estudiosos. Por muito tempo, os adeptos de Jansen foram encarados como porta-vozes do progresso, da liberdade religiosa, da insurreição burguesa contra o absolutismo decadente. Em contraposição, seus adversários, os jesuítas, representariam o imobilismo político e as forças conservadoras.

Trabalhos como o de Bernard Groethuysen, Les Origines d'esprit bourgeois en France (1927; As origens do espírito burguês na França) levam a uma conclusão oposta. Os jansenistas teriam recrutado seus aliados na burguesia imobilista, não empenhada na atividade revolucionária. O ascetismo místico e a ênfase na predestinação teriam representado, principalmente, a fuga sistemática às mudanças, em que o homem e a vontade humana desempenham papel central.

     
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