Materialismo

A crescente sofisticação do conhecimento levou o homem a duvidar da milenar explicação mágica do mundo e a tentar compreendê-lo com teorias que, baseadas na experiência objetiva, abrangessem desde a natureza e a origem da vida e do universo até a relação do próprio ser humano com essa realidade. Essas teorias dividiram-se de modo esquemático em duas grandes tendências: materialismo e idealismo.

Materialismo é toda concepção filosófica que aponta a matéria como substância primeira e última de qualquer ser, coisa ou fenômeno do universo. Para os materialistas, a única realidade é a matéria em movimento, que, por sua riqueza e complexidade, pode compor tanto a pedra quanto os extremamente variados reinos animal e vegetal, e produzir efeitos surpreendentes como a luz, o som, a emoção e a consciência. O materialismo contrapõe-se ao idealismo, cujo elemento primordial é a idéia, o pensamento ou o espírito.

Evolução Histórica

Tales de Mileto e outros filósofos pré-socráticos, já no século VI a.C., argumentavam que a filosofia devia explicar os fenômenos pela observação da realidade e não pelos mitos religiosos. Todos os fenômenos da natureza consistiriam em transformações do mesmo princípio material, sem intervenção divina. Empédocles apontou a existência de quatro elementos substanciais: a terra, a água, o fogo e o ar.

A tradição materialista na filosofia ocidental, porém, começou com Demócrito, no século V a.C., que afirmou que tudo que existe compõe-se de átomos (partículas invisíveis de matéria) em constante movimento no espaço vazio. Esses átomos se associam ou se separam de acordo com seu formato. Conhecida como atomismo, a teoria explicou as mudanças nas coisas como conseqüência de mudanças na configuração de átomos imutáveis. A diversidade quantitativa dos átomos (forma, dimensão e ordem) determinaria os diferentes fenômenos da natureza.

Epicuro, o mais influente dos materialistas gregos, confirmou a teoria de Demócrito mas atribuiu aos átomos a propriedade de se desviarem de suas rotas, o que explicaria o encontro entre eles. Com essa hipótese, Epicuro procurou demonstrar que a origem do movimento está na própria natureza, é inerente a ela e prescinde de intervenção divina.

Na sistematização que fez do conhecimento da época, Aristóteles pretendeu conciliar as vertentes materialista e idealista da filosofia grega. Seu pensamento representou um compromisso entre a ciência e a teologia a tal ponto que foi utilizado, no final da Idade Média, como instrumento de defesa da fé cristã.

Desenvolvimento Posterior

Ao longo da Idade Média, o idealismo platônico e depois o aristotelismo dominaram o pensamento ocidental. Com o Renascimento, e sob a influência do progresso das ciências naturais e da técnica, o materialismo ressurgiu em suas diversas concepções. Nos séculos XVI e XVII, na Inglaterra, Francis Bacon defendeu o materialismo naturalista; Thomas Hobbes criou um sistema materialista baseado nas concepções de Descartes; e Locke investigou a origem, a essência e o alcance das idéias por meio das quais o conhecimento se constitui. Na França, Descartes lançou os fundamentos do materialismo mecanicista com sua teoria dualista, que separa radicalmente espírito e matéria. Na Itália, Tommaso Campanella e Giordano Bruno defenderam o pampsiquismo, segundo o qual toda matéria tem um ímpeto interior que adquire qualidade anímica ou consciente. A integração dos átomos em moléculas gigantes e matéria viva propicia o surgimento da memória e, no homem, a consciência.

A idéia atingiu plena maturidade com Spinoza, filósofo judeu-holandês que assegurou que matéria e alma constituem os aspectos externo e interno de uma mesma coisa, a natureza, que se confunde com Deus. No século XVIII, as teorias materialistas mecanicistas mais consistentes surgiram na França com os iluministas, sobretudo Condillac e Diderot. No século XIX, com os avanços científicos em diversas áreas, em particular a teoria evolucionista de Darwin, as concepções materialistas tiveram grande impulso. Destaca-se o epifenomenismo, defendido pelo britânico Thomas Huxley, que sustentou que os processos mentais prescindem de relevância causal e só os processos físicos dão causa a outros.

Em meados do século XX, Karl Popper, filósofo britânico de origem austríaca, distinguiu quatro tendências materialistas na filosofia ocidental: o epifenomenismo de Huxley, a teoria da identidade, o pampsiquismo e o materialismo ou fisicalismo radical. A figura principal da teoria da identidade é o filósofo alemão Herbert Feigl, para quem os processos mentais não passam de processos físicos. O pampsiquismo espinozista foi retomado pelo britânico Conrad Hal Waddington e o alemão Berhard Rensch. O materialismo radical foi representado pelo americano Willard von Ormar Quine, que sustentou a inexistência dos processos conscientes e mentais. O problema da dualidade entre o corpo e o espírito desaparece, uma vez que só a matéria existe. Logo, no homem, só o corpo existe.

Na era contemporânea, o novo saber científico que inclui a teoria da relatividade e a mecânica ondulatória parecia ameaçar a base do materialismo, mas outras descobertas no domínio da bioquímica, da física e da psicologia fisiológica, assim como tecnologias como a informática tornaram mais plausíveis as concepções do materialismo e levaram ao ressurgimento do interesse em torno de suas teorias centrais. A física constatou, por exemplo, que a matéria é formada não de átomos, mas de elétrons, prótons, mésons e outras partículas subatômicas e que não há distinção entre matéria e energia. O fisicalismo, portanto, admite que matéria é tudo aquilo que a física afirma que existe.

O progresso na tecnologia de computadores, que substituem o homem em muitas atividades intelectuais rotineiras como o cálculo, renovou a discussão sobre a natureza da inteligência e levou a reiteradas tentativas de criar inteligência artificial, que substituiria a mente humana e provaria que, como o cérebro, ela se compõe de matéria.

Materialismo Dialético

A doutrina marxista é uma ciência à qual o pensador alemão Karl Marx deu o nome de materialismo histórico e cujo objeto são as transformações econômicas e sociais, determinadas pela evolução dos meios de produção. O materialismo dialético pode ser definido como a filosofia do materialismo histórico, ou o corpo teórico que pensa a ciência da história. Os princípios fundamentais do materialismo dialético são quatro:

(1) a história da filosofia, que aparece como uma sucessão de doutrinas filosóficas contraditórias, dissimula um processo em que se enfrentam o princípio idealista e o princípio materialista;

(2) o ser determina a consciência e não inversamente;

(3) toda a matéria é essencialmente dialética, e o contrário da dialética é a metafísica, que entende a matéria como estática e anistórica;

(4) a dialética é o estudo da contradição na essência mesma das coisas.

Baseado na dialética de Hegel, segundo a qual o progresso das idéias se dá pela sucessão de três momentos - tese, antítese e síntese -, o materialismo dialético pretende ser, ao mesmo tempo, o fim da filosofia e o início de uma nova filosofia, que não se limita a pensar o mundo, mas pretende transformá-lo.

     
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