Blaise Pascal

"O coração tem razões que a própria razão desconhece" é a frase conhecida do filósofo e escritor francês Pascal que a humanidade repete há séculos e que nomeia os dois elementos do conhecimento sobre os quais ele construiu sua doutrina filosófica -- o raciocínio lógico e a emoção.

Blaise Pascal nasceu em 19 de junho de 1623 em Clermont-Ferrant, Auvergne. Seu talento precoce para as ciências físicas levou a família para Paris, onde ele se dedicou ao estudo da matemática. Aos 16 anos escreveu Éssai pour les coniques (1640; Ensaio sobre as cônicas). Seu pai foi transferido para Rouen e lá Pascal realizou as primeiras pesquisas no campo da física e inventou uma pequena máquina de calcular, a primeira calculadora manual que se conhece, conservada no Conservatório de Artes e Medidas de Paris.

Datam desse período em Rouen os contatos iniciais de Pascal com os jansenistas, facção católica que, inspirada em santo Agostinho, rejeitava o conceito de livre-arbítrio, aceitava a predestinação e ensinava que a graça divina, e não as boas obras, é a chave da salvação. Assim, cedo Pascal se encontrou nos dois campos que definiram o desenvolvimento posterior de sua doutrina: a ciência, que existe no mundo da razão; e a fé religiosa, que pertence ao coração, única via para as angústias existenciais e questões metafísicas.

De volta a Paris em 1647, dedicou-se a intensa atividade científica. Realizou experiências sobre a pressão atmosférica, na tentativa de calcular seu valor, escreveu um tratado sobre o vácuo, inventou a prensa hidráulica e a seringa e aperfeiçoou o barômetro de Torricelli. Em matemática ficaram célebres sua teoria da probabilidade e seu Traité du triangle arithmétique (1654; Tratado do triângulo aritmético). Seu triângulo apresentava diversas relações que seriam de grande utilidade para o desenvolvimento posterior da estatística.

Após uma poderosa experiência mística em 1654, decidiu dedicar-se a Deus e à religião e no ano seguinte recolheu-se à abadia de Port-Royal des Champs, centro do jansenismo. Nesse período, elaborou os princípios de sua doutrina filosófica, centrada na contraposição dos dois elementos básicos e não excludentes do conhecimento: de um lado o "espírito geométrico", a razão, que tende ao lógico e ao exato; do outro, o "espírito de finura", o coração, que transcende o mundo exterior e é capaz de apreender o inefável, o religioso e o moral. Na base dessa bipartição está a oposição entre a natureza divina do espírito e a natureza humana, falha e pecaminosa, da matéria.

Duas das obras de Pascal concentram suas principais concepções filosófico-religiosas: Les Provinciales (1656-1657; As provinciais), conjunto de 18 cartas escritas para defender o jansenista Antoine Arnauld, oponente dos jesuítas que estava em julgamento pelos teólogos de Paris; e Pensées (1670; Pensamentos), um tratado sobre a espiritualidade, em que faz a defesa do cristianismo. Em ambas denuncia a casuística jesuíta por substituir a angústia metafísica pela observância automática dos ritos, simplificação inaceitável da prática e da fé religiosa.

Em Les Provinciales surgiram as primeiras evidências de que Pascal se afastava do jansenismo, tendência aprofundada nas Pensées. Pascal voltou-se para uma visão antropocêntrica da graça e deu à iniciativa humana uma importância que não mais se coadunava com os postulados jansenistas. Revestiu suas reflexões filosóficas de um estilo elegante, breve e conciso que o tornou o primeiro grande prosador da literatura francesa. Em linguagem profundamente identificada com sua visão singular do mundo, transmitiu, com senso exato da palavra, a contradição entre a lógica pura e a angústia existencial, o antagonismo entre o cientista e o metafísico, a luta entre o espírito e a carne. Fascinado pelos mistérios do que chamou de "condição humana", tratou com tamanha lucidez essa categoria que ela adquiriu um sentido definitivo na filosofia moderna.

A obra de Pascal como teólogo e escritor foi muito mais influente do que sua contribuição à ciência. Está presente nos românticos do século XVIII, nas reflexões de Nietzsche e nos modernistas católicos, que encontram nele o precursor de seu pragmatismo. Dentre os pensadores do século XX, equipara-se a Kierkegaard, Kafka, Heidegger e Sartre e destaca-se como um dos mestres do racionalismo e irracionalismo modernos.

Com a saúde muito abalada, Pascal pouco escreveu a partir de 1659. Compôs a "oração pela conversão" que despertou a admiração dos ingleses Charles e John Wesley, fundadores da Igreja Metodista. Pascal morreu em Paris em 19 de agosto de 1662.

     
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