Linguagem

Instrumento sem o qual seriam impossíveis a vida em sociedade e qualquer forma de cultura, a linguagem pode ser considerada o traço que melhor define a espécie humana.

Linguagem é todo sistema de expressão que permite a comunicação entre indivíduos por meio de signos convencionais, falados ou escritos. Por extensão, fora do âmbito lingüístico, denomina-se linguagem todo sistema humano de comunicação baseado em determinadas convenções -- visuais, auditivas, tácteis etc.

Todo homem é dotado da faculdade de exprimir intencionalmente sua vida interior, fato que resulta de condições específicas. Zoón politikón (animal social), como lhe chamou Aristóteles, ou Homo sapiens, de Lineu, ou Homo faber, de Bergson, o homem é principalmente Homo loquens. É social, sábio, obreiro, mas sobretudo falante. Nenhum ser humano, a menos que mergulhe em extrema idiotia, é desprovido da possibilidade de comunicar aos demais um pouco do que pensa e sente. Nunca se encontrou um agrupamento humano, por mais selvagem que fosse, privado dessa faculdade elementar. Nem se pode compreender que nos tempos primitivos a espécie humana se viesse a constituir em agrupamentos antes que seus membros pudessem expressar o que pensavam e o que sentiam. Ser homo e loquens é uma e a mesma coisa.

Chama-se linguagem a expressão da faculdade comunicativa. Na sociedade em que vive, ou o homem se apropria de um instrumento que se lhe oferece já elaborado, o que é o caso comum, ou o elabora com todas as peças necessárias, o que sucede com os surdos-mudos. Esse instrumento de utilização coletiva é o que se chama de língua.

Signos. Examinando-se de perto a tessitura da linguagem, verifica-se que ela é sempre um sistema de signos articulados. Tais signos podem ser sonoros, visuais, táteis ou de outra natureza. Diz-se então que a linguagem é oral, mímica, escrita etc. Ordinariamente, nenhuma linguagem fica adstrita a um único campo da sensibilidade humana; o homem civilizado pratica uma linguagem predominantemente oral, com largas concessões à mímica, representada na gesticulação. Admite-se que o homem primitivo daria muito maior expansão à linguagem mímica, que oferece amplas possibilidades de comunicação. A superioridade da linguagem oral se evidencia, por exemplo, na escuridão, ou quando os interlocutores são incapazes de se ver. Já se observou que alguns indígenas americanos não podiam compreender-se bem à noite, a não ser junto à luz do fogo, por terem de recorrer a uma rica gesticulação.

Exemplo de linguagem escrita (e, portanto, visual) é o chinês escrito, utilizado por nações que não se compreendem falando. Cerca de uma quarta parte da população do mundo comunica nessa linguagem, ainda que alguns tenham idiomas que nem são aparentados com os dialetos chineses. Os coreanos, que têm língua polissilábica, adotaram muito cedo os sinais ideográficos dos chineses, fazendo apenas algumas adaptações. No século V da era cristã, o mesmo sistema foi aceito pelos japoneses e entre eles reinou por muito tempo, até que influências européias levassem à adoção de um silabário cujos compromissos com o critério antigo são mais do que evidentes.

A linguagem ideográfica consiste em desenhar sinais correspondentes a idéias. A idéia de "homem", por exemplo, se figura por certo signo, independente do vocábulo que se possa ouvir. O mesmo para cada outra idéia, como "amar", "campo", "verde" etc. Conhecidos os valores de uma série de sinais, fica esclarecido o pensamento ou frase que se busca exprimir. É o mesmo que ocorre quando se escrevem números por meio de algarismos. Todos sabem o que significa 1999, ou MCMXCIX, qualquer que seja a língua em que o indivíduo se expresse. Quem não saiba o português, no entanto, não compreenderá o que venha a ser "mil novecentos e noventa e nove". Usam-se muitas linguagens ideográficas, limitadas a certos fins, como a música, a química, a astronomia. Também é visual a linguagem mímica dos surdos-mudos, em que há um gesto para cada idéia que se deseje transmitir.

A escrita fonética da grande maioria das línguas, bem como a chamada linguagem dactiloscópica dos surdos-mudos educados, não é senão a visualização da linguagem oral. O mesmo se dá com a expressão telegráfica inventada por Morse. O sistema Braille, para cegos, é uma redução táctil da linguagem oral.

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